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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tese de mestrado de Leonor Losa


A tese de mestrado de Leonor Losa ("Nós humanizámos a indústria". Reconfiguração da produção fonográfica e musical em Portugal na década de 60) foi defendida em 2009 na Universidade Nova de Lisboa. Trabalho de grande qualidade, fiquei a conhecer bastante melhor a atividade fonográfica do país naquele período quando o li agora.

Logo à entrada, a autora diz que a sua tese tinha por objetivo a reconfiguração da produção discográfica, em especial a do editor Arnaldo Trindade, a quem dedica os dois últimos capítulos.

O texto tem introdução, cinco capítulos e conclusões. Os nomes dos capítulos são:

2) "Musicas" e "machinas falantes": mercado de partituras e fonogramas em Portugal desde meados do século XIX até à década de 30,

3) A emergência da rádio: sobreposição de reportórios dos anos 30 ao início dos anos 60 do século XX (criação da Emissora Nacional, surgimento de "fábricas de discos" e novos reportórios, centralidade da rádio),

4) Panorama editorial em Portugal nos anos 60 (protagonismo da Valentim de Carvalho, Fábrica de Discos Rádio Triunfo: nacionalização da produção fonográfica, Sassetti: edição de novos reportórios, atividade editorial no país nos anos 60),

5) Arnaldo Trindade: percurso biográfico e constituição da editora,

6) "Nós humanizámos a indústria". Reconfiguração da produção fonográfica em Portugal na década de 60 (postura editorial de Arnaldo Trindade e relação com os músicos, produção de "música de tema": tentativas de designação genérica dos produtos musicais).

No quarto capítulo, a autora aborda a autonomização da produção fonográfica em Portugal e o protagonismo dos espetáculos (p. 57), bem como o papel da imprensa especializada, de que releva o Mundo da Canção. A criação de uma fábrica de discos da Valentim de Carvalho ocorreu no começo da década de 1960, já depois do falecimento do fundador da empresa. Um dos sobrinhos, Rui Valentim de Carvalho, contra a vontade da empresa, abriu a fábrica do Campo Pequeno, onde se realizaria a prensagem de EP de gravações originais e cópias de gravações de editoras e etiquetas estrangeiras (p. 64). Na mesma década, seria construído o estúdio de Paço d'Arcos. A centralidade de reportório no fado (caso da fadista Amália Rodrigues) e a qualidade de gravações feitas pelo técnico de som Hugo Ribeiro garantiram a supremacia da editora. A Valentim de Carvalho apostou também em estilos de música importada caso das tipologias rock'n'roll e ié-ié (pop de origem francesa). Já a Fábrica de Discos Rádio Triunfo, fundada em 1946 no Porto, começara como loja de rádios e aparelhos de transmissão (p. 65), dando início em 1948 à produção de fonogramas. A Rádio Triunfo seria também editora, tendo um catálogo forte em música de ranchos folclóricos e intérpretes que desenvolviam as suas carreiras na rádio (Tony de Matos, Maria de Lurdes Resende, Maria Clara, Gabriel Cardoso), com uma relação de proximidade com a Emissora Nacional, cujo estúdio em Vila Nova de Gaia era usado habitualmente para gravações de discos.

A Sasseti, fundada em 1848, seria comprada por António Marques de Almeida e dois outros sócios que tinham fundado a cooperativa Guilda da Música em 1967 (p. 70). Pouco tempo depois associada à organização Zip-Zip, a Sassetti teve uma forte incidência nas gravações de música erudita (Antologia da Música Europeia) e de música popular portuguesa (Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília e José Afonso). Finalmente, a Arnaldo Trindade, cujo proprietário estivera com frequência nos Estados Unidos, distribuiu discos de cantores em voga franceses (Johnny Halliday, Françoise Hardi, Serge Gainsbourg) e ingleses (Sandie Shaw), mas também as etiquetas Island (soul music, rythm'n'blues) e Tamla Motown (reggae) (p. 76). Numa das visitas aos Estados Unidos, Arnaldo Trindade comprara uma máquina de gravação Ampex, de quatro pistas, começando a gravar em 1952. Iniciou a etiqueta Orfeu em 1956 e publicou discos do Conjunto Pedro Osório, Titãs, Conjunto Sousa Pinto, Pop Five Music Incorporated, mas também do Conjunto Maria Albertina, Conjunto António Mafra, Quim Barreiros, num apoio nítido à produção discográfica do norte do país (p. 81). Arnaldo Trindade notabilizou-se ainda pelas estratégias de promoção: oferta de fonogramas às estações de rádio, organização de concertos (exemplos: Elton John, Marino Marini, Sandie Shaw, Sylvie Vartan), publicidade televisiva e sistema contratual com os intérpretes, com pagamento de remuneração mensal tendo como contrapartida a gravação de um fonograma por ano (casos de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso).

Textos publicados por Leonor Losa podem ler-se na Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, com direção de Salwa Castelo-Branco, conjunto de quatro volumes editados em 2010 pelo Círculo de Leitores.

Rogério Santos / Indústrias Culturais, 02/02/2012


Um artigo do jornalista Orlando Dias Agudo publicado na revista Antena, nº 80, de 1 de julho de 1968 pode ser lido no blog Indústrias Culturais. O jornalista teve ocasião de visitar as instalações da Valentim de Carvalho e da Fábrica Portuguesa de Discos da Rádio Triunfo.

(imagem de Hugo Ribeiro no referido artigo)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estranha Forma de Vida


O 6º episódio de "Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa" é dedicado ao outro lado do meio musical - as editoras por trás dos discos, especialmente no período que vai de inícios dos anos 50 a inícios dos anos 80. Para nos acompanhar, contámos com os testemunhos de Arnaldo Trindade, Carlos Cruz, Carlos Portugal, Daniel de Sousa, Eugénio Pepe, Francisco Nicholson, Hugo Ribeiro, Manuel Jorge Veloso, Mário Martins, Pedro Osório e Vieira da Silva.

João Carlos Callixto

Após a introdução do LP, em 1948, a indústria discográfica assiste a uma completa transformação. A etiqueta Orfeu foi uma das pioneiras no nosso país, como nos conta neste episódio Arnaldo Trindade. Mas, nas décadas de 50 e 60, a Valentim de Carvalho e a Rádio Triunfo disputavam muitos dos nomes maiores do fado e da canção ligeira, e profissionais do meio, como Carlos Portugal, Daniel de Sousa ou Mário Martins, relembram a sua passagem por essas editoras. Já na segunda metade da década de 60, surgem independentes, nomeadamente a Riso & Ritmo (recordada por Eugénio Pepe, Francisco Nicholson e Vieira da Silva) e a Zip-Zip (de quem ouviremos Carlos Cruz), criadas após o sucesso dos programas homónimos na RTP. A histórica Sassetti lança-se também no mercado discográfico já em inícios dos anos 70, como recordam Manuel Jorge Veloso e Pedro Osório, e acaba por conquistar um lugar de relevo no panorama nacional.

Site RTP

Discos Estoril
Rádio Triunfo / Alvorada
Valentim de Carvalho
Orfeu / Arnaldo Trindade
Discos Rapsódia
Tecla
RR / FF
Marfer
Zip-Zip
Sassetti / Guilda da Música
...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Orfeu


11/11/11. A LX Factory, tal como aconteceu nos últimos seis anos, escancara as suas portas durante um dia de Novembro, e convida toda a gente a espreitar, a intrometer-se e ver o que se passa lá dentro. É um dia de festa, em que se celebra um espaço que se recusou a permanecer apenas como um símbolo do passado – a antiga Companhia de Fiação e de Tecidos Lisbonense – e se impôs como um importante pólo de criatividade, uma ilha efervescente nascida no meio de Lisboa. E isso, parecendo, que não leva-nos à Orfeu, a mítica editora criada por Arnaldo Trindade em 1956, adormecida no início da década de 1980, e renascida agora como Art'Orfeu Media. Hoje, vive no interior da LX Factory. E esta sexta-feira vai mostrar, em dois momentos, o seu passado e o seu futuro.

Orfeu – ontem, hoje e amanhã Ontem, 17h30-18h30:

Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, Fausto e Vitorino, mas também Miguel Torga, José Régio ou Sophia de Melo Breyner, mas também Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro ou Jaime Cortesão, e ainda Pop Five Music Incorporated, Quim Barreiros, Duo Ouro Negro ou Conjunto António Mafra. A história da Orfeu, fundada por Arnaldo Trindade em meados da década de 1950, é a história de um homem que queria estar entre os músicos, que não queria ser um editor de secretária, à distância, e que se dividia entre um amor profundo à música e outro tanto à poesia. E que, mais do que tudo, queria criar algo novo na música portuguesa. E oferecer o seu espaço ao talento que encontrava.

Para recordar o percurso notável da Orfeu nas décadas de 50, 60 e 70, a Art’Orfeu Media convida todos a partilharem, entre as 17h30 e as 18h30, uma conversa com quem esteve e está hoje directamente envolvido na história escrita e reescrita da editora:

- Arnaldo Trindade, seu fundador, dinamizador e admirável contador de histórias;

- Carlos Cruz, responsável pela comunicação e parte da “super equipa” de Arnaldo Trindade – que incluía ainda José Niza, José Calvário e Miguel Graça Moura – em princípios da década de 70;

- David Ferreira, ex-director da EMI-Valentim de Carvalho, actual responsável pelas reedições do projecto Poetas & Prosadores do catálogo da Orfeu;

- Ruben de Carvalho, director da Festa do Avante! e responsável pelas reedições da série "Fados" na Orfeu;

- Vitorino, músico que gravou para a Orfeu os seus quatro primeiros álbuns;

- Zélia Afonso, viúva de José Afonso, nome maior do catálogo da editora, cuja obra será integralmente reeditada em 2011.

No final desta confraternização o professor e pianista Amílcar Vasques-Dias fará uma interpretação muito especial de alguns temas da obra do Zeca Afonso.

No pós-jantar, o palco que foi ocupado pela conversa ao fim da tarde dará lugar à música, interpretada por alguns dos nomes que recuperam o espírito original da Orfeu para os dias de hoje. Durante o ano de 2011, a par da reedição de discos de Mário Viegas e Mena Matos, a nova Orfeu publicou dois novos álbuns que, de certa forma, ajudam a balizar os caminhos da música portuguesa que a editora explorará de futuro:

"REIntervenção", um tributo a José Afonso que promove parcerias inéditas tão ao gosto da antiga Orfeu e "Onde Mora o Mundo", disco em duo de JP Simões e Afonso Pais. Simões e Pais, de resto, integrarão o lote de músicos que actuará esta Sexta-feira no espaço daOrfeu na LX:

- Amílcar Vasques-Dias e Tiago Sousa, em representação do projecto "REintervenção";

- Afonso Pais e JP Simões, em recapitulação do disco "Onde Mora o Mundo";

- Vítor Rua, fundador dos GNR e do duo experimental Telectu, em apresentação de "Heavy Mental", disco improvisado em guitarra de 18 cordas a publicar em Novembro;

- Filipe Raposo, nome mais ligado à música tradicional, aqui em apresentação do seu disco em trio de jazz a publicar em Novembro;

- Pedro Esteves, novo cantautor português, cujo disco de estreia, "Mais Um Dia", será lançado em Fevereiro.

Entre o passado e o futuro há um presente. Venha ter com ele no dia 11. Às 17h30 e às 22h30.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Arnaldo Trindade

A Orfeu gravou poetas como Miguel Torga, acolheu depois a música de José Afonso ou Adriano Correia de Oliveira e deu duas senhas a uma revolução. "Éramos construtores de uma ideia nova", diz o fundador, Arnaldo Trindade. Trés décadas depois, a Orfeu está de volta

Um rapaz de 18 anos põe-se a caminho de Miramar, em Vila Nova de Gaia, para falar com um vulto da poesia famoso pela reserva e pelo temperamento difícil. O rapaz não se intimida. Bate à porta e explica-lhe ao que vai. Quer gravá-lo a dizer a sua poesia. O "mais difícil" dos poetas, Miguel Torga, recebe-o e ouve-o. "Os poetas são muitas vezes mal interpretados pelos ‘diseurs', porque interpretam teatralmente e perde-se o intimismo dos poemas", argumenta. Mostra-lhe discos de Jean Cocteau para reforçar a argumentação. O rapaz sai da casa de Miramar com um prémio que impressiona. A sua recém-formada editora, a Orfeu, seria lançada com Torga por Torga. "Quando criámos a secção de discos, fui falar obviamente com o mais difícil. É assim que se deve fazer, não é?", lança Arnaldo Trindade, hoje com 77 anos.

Foi precisamente essa ambição e essa força de vontade que nos conduziu, numa tarde de Verão de 2011, a uma casa na Foz portuense. Porque primeiro foi Torga, e, como quem "tinha Torga tinha tudo", chegaram à Orfeu depois dele José Régio, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro ou Ferreira de Castro. Porque depois, quando à poesia se juntou a música, chegou a ele um homem chamado José Afonso, "proscrito" no meio editorial pelos problemas com a censura (a autocensura das rádios e editoras, e censura a oficial do Estado), à procura de casa que o acolhesse. "Era tão maravilhoso, certamente político, mas tão inteligente", que Trindade não hesitou. Em 1968, José Afonso gravou o seu primeiro disco para a Orfeu. "E quem tinha o Zeca Afonso tinha tudo".

Foi na Orfeu que José Afonso gravou o melhor da sua obra, foi na Orfeu que Adriano Correia de Oliveira lançou todos os seus discos, ali ouvimos a estreia de Vitorino, o "Pano Cru" e o "Campolide" de Sérgio Godinho, o "Blackground" do Duo Ouro Negro.

Eis-nos então, 43 anos depois de "Cantares do Andarilho", a ser recebidos numa casa da Foz por um homem enérgico e jovial chamado Arnaldo Trindade. Contador de histórias contagiante, tem um misto de fleuma inglesa e descontracção portuense. Um cavalheiro que, na companhia de um charuto e de arquivos seleccionados, nos conduzirá durante várias horas pela história inacreditável dessa Orfeu de poetas e músicos, de designers e empreendedores diversos, que, de pequena editora independente anexa a loja de electrodomésticos, na Rua de Santa Catarina, em frente ao Majestic, se tornaria um aglutinador e instigador de várias revoluções: estéticas, tecnológicas e de mercado. Tudo seguindo uma política explicada nestes termos simples: "A minha linha era a beleza e a qualidade. Coisas que merecessem a pena ser gravadas. Sempre o melhor". Ele que nunca dirá "eu", privilegia sempre o "nós", definirá assim a Orfeu: "Éramos construtores de uma ideia nova". Ele que, aqui sim, utiliza o eu, era o "catalisador num ambiente fervilhante".

À primeira vida da Orfeu, entre as décadas de 50 e 80, segue-se agora um renascimento. Na recta final de 2010, voltámos a encontrá-la nas lojas (ver caixa). Com Arnaldo Trindade, porém, é pela primeira história da Orfeu que viajamos.

Ver mais longe

Filho de um comerciante solidamente implantado no coração do Porto, Arnaldo Trindade cresceu num ambiente especial. No final dos anos 50, o pós-guerra e um "espírito anti-establishment" criou na Invicta um período de renascimento artístico. Foi criado o Cineclube do Porto, onde Arnaldo Trindade ia todos os domingos, às 11h, ver os filmes que não passavam em exibição comercial: "o neo-realismo italiano, o romantismo francês". Surge também o Teatro Experimental do Porto, de que será um dos fundadores. Havia ainda a escola de Belas Artes e pintores como Isolino Vaz, que seriam depois "resgatados" para trabalhar na Orfeu. Arnaldo Trindade estava no centro de todas estas movimentações. "Ia jantar todas as segundas ao Escondidinho com o Manoel de Oliveira, o José Régio, o Alberto Serpa, o António Lopes Ribeiro", conta. Eram tertúlias organizadas pelo director do jornal "O Primeiro de Janeiro", Manuel Pinto de Azevedo, "onde se discutia tudo": as artes, a política, a vida. Todos contra o regime do Estado Novo, assegura. "Penso que ninguém era do regime naquela altura. Talvez os chamados tachistas... Mas francamente, com o espírito de renovação que havia, quem é que queria ser retrógrado?" Certamente que não Arnaldo Trindade.

Ele que viajava todos os anos até aos EUA para um mês de férias, que conhecia Londres e Paris, tinha muito mundo. Via mais longe: "A grande vantagem de viver em Portugal é que conseguíamos ver o bom e o mau do futuro". Quando o seu pai morre prematuramente e Arnaldo Trindade se vê obrigado a trocar o percurso na engenharia pelo comando dos destinos da empresa de venda de electrodomésticos, começa a aplicar o que lhe mostrava esse futuro àquilo que tinha à sua volta. Portugal, década de 1950.

Grava músicos jazz a viver no Porto e aproveita a passagem de nomes famosos pelas salas da cidade para os registar - aconteceu com Los Paraguayos, por exemplo. Grava-os com as melhores condições que a tecnologia lhe podia então oferecer - um gravador Ampex de quatro pistas -, e contrata fotógrafos e designers para assegurar a qualidade do grafismo das edições.

Tem visão de negócio: para estimular a compra de discos, viaja até França e encomenda milhares de gira-discos; depois lança uma promoção: na compra de dez fonogramas, oferecia um desses aparelhos. Tem "espírito de missão": "Tínhamos a loja de electrodomésticos e isso dava-nos o suporte financeiro. A Orfeu era a minha forma de intervir e a minha paixão. Só foi possível fazê-la em termos de paixão, porque não havia lógica comercial". Assim atraiu os melhores.

Levou Miguel Torga aos primeiros "estúdios" da Orfeu. Numa das cabines da loja, depois da meia-noite para que não houvesse ruído a corromper o silêncio necessário, o autor de "Bichos" leu "Ode à Poesia". Ao ouvir a sua própria voz, emocionou-se de tal forma que a mulher, Andrée Cabrée, teve de o reanimar com uma injecção de coramina.

Depois dos poetas e prosadores, Arnaldo Trindade gravou músicos jazz e bandas portuenses, alargou o âmbito da acção assegurando contratos de distribuição com editoras como a inglesa Pye Records, a americana Tamla Motown ou a Vogue francesa - o que lhe permitiu trazer ao Porto Françoise Hardy, entre outros.

Um espírito familiar

A chegada da Orfeu à história da música portuguesa começa a ganhar contornos de definitiva grandeza quando António Portugal, guitarrista imprescindível na renovação da "canção de Coimbra", e Rui Pato, violista que entre muita actividade acompanhou José Afonso no seu percurso discográfico inicial, alertam Arnaldo Trindade para um cantor extraordinário que surgia em Coimbra. "O grande passo foi quando conheci o Adriano Correia de Oliveira", acentua. Com o cantor de "Trovas do vento que passa", que até à morte aos 40 anos, em 1982, registaria toda a sua obra na editora, anunciava-se a chegada à Orfeu de uma geração que renovaria profundamente a música portuguesa enquanto se assumia como barricada de resistência ao fascismo. Adriano trouxe José Niza - "disse-me que era indispensável, que o contratasse ao preço que pudesse" -, que se tornou peça fulcral da editora, ao lado de José Calvário, enquanto músico, produtor e compositor. E entretanto José Afonso bateu à porta.

A Orfeu diversificou-se e, para dar o passo em frente, assegurou a viabilidade financeira com bandas como o Conjunto António Mafra, "populares mas muito distantes do popularucho que havia na altura", garantindo assim a distribuição junto das comunidades emigrantes portuguesas.

Paralelamente, Arnaldo Trindade organizava em 1969 a primeira convenção da Indústria Discográfica em Portugal, atraindo a atenção da revista "Billboard", por exemplo, ao trazer a Ofir representantes de todo o mundo e bandas como os Foundations, os Status Quo ou os Long John Baldry, onde tocava um pianista louro então chamado Reginald Dwight (hoje conhecemo-lo como Elton John).

Arnaldo Trindade dirigia a Orfeu como empresa disciplinada - "sem precisar de impor nada" -, mas com um espírito familiar, dado ao improviso a um grau recomendável de excentricidade: após a vitória de Sandie Shaw na Eurovisão, com "Puppet on a string", montou uma caravana de seis carros para viajar até Paris, carregá-los de EP e regressar antes que a Valentim de Carvalho os tivesse nas lojas.

Revolução a caminho

José Afonso. Arnaldo Trindade mostra-nos uma dedicatória: "Adversariamente, mas com admiração, José Afonso". Afonso, tal como Adriano Correia de Oliveira, tal como muitos dos autores editados por Arnaldo Trindade, defendia a esquerda revolucionária. Trindade, por sua vez, tinha em mente "uma ideia democrática americana" - hoje, confessa, não sabe como se há-de definir. Estavam, porém, do mesmo lado da barricada. Claramente: "Era preciso ir mais à frente para conseguir mudar o sistema, para conseguir a utopia que sempre defendi, tal como Zeca Afonso, de uma sociedade mais igualitária. A nossa política era a utopia".

Era. Arnaldo Trindade que, enquanto editor, era responsável perante a PIDE pelas edições, assumia essa responsabilidade sem constrangimentos. Até porque, apesar de "em momentos mais complicados" ter de correr a esconder os discos debaixo da cama dos filhos, o seu "único disco proibido" foi, conta, "Je t'aime, moi non plus", de Serge Gainsbourg e Jane Birkin - apareceu o oficial da PIDE e apreendeu-o, mas não sem antes reservar "três ou quatro para si".

Era uma utopia? Sim, repetimos. Arnaldo Trindade não olhava a custos. José Afonso e Adriano Correia de Oliveira tinham generoso salário mensal, com obrigação de gravar um novo álbum a intervalos regulares. Os músicos ambicionavam o melhor e era o melhor que a Orfeu lhes oferecia. "Numa altura tínhamos o Zeca a gravar no Chateau Herouville [nos Strawberry Studios, onde haviam gravado antes, por exemplo, os Rolling Stones], com o José Mário Branco a produzir; o Adriano em Londres na Pye Records; o [José] Cid na Vogue, em Paris".

"Cantigas do Maio" (álbum de 1971 de José Afonso, onde encontramos "Grândola vila morena" ou "Canto da Primavera") custou "um milhão de escudos", impressiona-nos. "Mas é o melhor disco português de sempre", sorri, orgulhoso. E isso, claro, é para ele o mais importante.

Quando se preparava para editar "Operário Em Construção", LP de 1972 em que Mário Viegas, acompanhado de José Calvário (compositor e orquestrador residente da Orfeu), José Luís Tinoco e José Niza, interpreta poesia de Vinicius de Moraes, Bertold Brecht ou Manuel Alegre, vários amigos avisaram-no que "estava louco", que era uma imprudência. "Mas não gravo porquê?, isto é tão bonito", retorquiu. E gravou, e editou.

Dois anos depois, o 25 de Abril foi anunciado com "E depois do adeus" e "Grândola vila morena". Curiosa coincidência: duas gravações da Orfeu.

Na sua história, além de todos os anteriormente referidos, está a epopeia em rock sinfónico de José Cid, "10.000 Anos Entre Vénus e Marte", ou canções vitoriosas no Festival da Canção - "E depois do adeus", "Festa da vida"http://www.blogger.com/img/blank.gif, por Carlos Mendes, ou "Madrugada" por Duarte Mendes. Fica uma história ainda por redescobrir, a dos poetas que foram a primeira paixão de Arnaldo Trindade.

Quando encerrou a Orfeu, não sentiu qualquer angústia, qualquer saudade. Não tem nenhum disco da editora a que dedicou três décadas de vida. Tem livros e dedicatórias: "Arnaldo Trindade, a quem tanto deve tanta poesia", assinado: Ary dos Santos.

Interessam-lhe as memórias e passá-las a quem o procurar. "O maior orgulho foi ter-se conseguido fazer", diz. "Tudo o que nasce morre, e nós morremos no zénite". E agora renasceram.

Mário Lopes, Ipsilon / Público, 04/08/2011


As versões de José Afonso em "REintervenção", "Onde Mora O Mundo", de JP Simões e Afonso Pais, e reedições de Mário Viegas e Mena Matos deram arranque à nova Orfeu. Seguem-se Vítor Rua e Pedro Esteves.


Na recta final de 2010, anunciou-se o regresso. Orfeu: todos recordávamos o logótipo dos discos de José Afonso e foi precisamente por ele que começou o renascimento. A 2 de Agosto de 2009, o autor de "Os Vampiros" completaria 80 anos e a Movieplay desafiou Pedro Passos a organizar-lhe uma compilação de homenagem. A falta de tempo adiou o projecto, mas deixou uma ideia a germinar. Porque não reactivar a Orfeu?

A ideia tornou-se realidade com "REintervenção", o álbum inicialmente idealizado, e de "Onde mora o mundo", de JP Simões e Afonso Pais. Entretanto, surgem também as reedições de "Operário em Construção/País de Abril", com poesia de Vinicius de Moraes, ou Manuel Alegre dita por Mário Viegas, e de "25 de Abril ‘Confidencial'/Proibição de Voltar à Direita", do humorista Mena Matos. Os primeiros lançamentos revelam a estratégia da nova Orfeu. Pedro Passos, A&R: juntar, "às novas edições, a recuperação dos discos antigos", muitos nunca disponibilizados em CD. Na calha pode estar o lançamento de uma "colecção de poesia, dita pelos próprios autores", parte importante e por agora indisponível do catálogo original.

Para a "rentrée" estão marcados os lançamentos de "Heavy Mental", de Vítor Rua, um improviso em guitarra de 18 cordas construída pelo músico, e "Mais Um Dia", de Pedro Esteves, um dos músicos de "REintervenção".

Mário Lopes / Público, 04/08/2011


Esperava outra reacção do José Afonso...

O choque foi muito grande, porque eu fazia umas cantiguinhas um bocado para o lírico e, depois dessa conversa, fui para casa e fiz uma série de cantigas assim de rajada, de um dia para o outro. Uma delas, o "Cantigueiro", que foi a que mais me marcou. O Zeca achou graça, adoptou-a e, quinze dias depois, lá estava eu a gravar um disco para a editora onde ele gravava: a "Arnaldo Trindade".

Era uma editora fora do comum...

O senhor Arnaldo Trindade era um comerciante e importador de electrodomésticos que gostava muito de música. Gostava tanto que pagava o ordenado ao José Afonso e ao Adriano Correia de Oliveira para eles se manterem na editora. E fazia-o porque era amigo deles e pelo gosto de não perder as coisas que eles compunham e cantavam...

Não haveria muito lucro...

Quando o Arnaldo Trindade gravava José Afonso e Adriano Correia de Oliveira ele assumia logo à partida que os discos iam ser proibidos. Os que eram divulgados vendiam-se bem mas, feitas bem as contas, duvido que lhe desse lucros. Darão agora, e a gente que não merece. Além disso, os discos que eram proibidos não rendiam direitos de autor, o que fazia com que os ganhos fossem mínimos... Depois, o meu disco saiu e teve uma passagem oficial na Renascença e uma outra passagem na Emissora Nacional. A seguir foi proibido.

Entrevista de Samuel ao Jornal Folha de Montemor

Página sobre Arnaldo Trindade

http://arnaldotrindade.no.sapo.pt/

EDITOR DISCOGRÁFICO DE MÚSICA PORTUGUESA NOS ANOS 50,60,70 E 80 - FUNDADOR DA ETIQUETA ORFEU

Foram tantas, de tão diferentes tipos musicais, as edições que foram da responsabilidade do editor Arnaldo Trindade, desde a década de 50 até à de 80, que nos é impossível mencionar todas, no entanto ficam aqui alguns nomes gravados. Será de salientar que se a Orfeu não tivesse existido, provavelmente,muitos deles nunca teriam saído do anonimato, ou pelo menos algumas das suas obras nunca teriam sido conhecidas, o que teria sido uma perda irreparável para a música portuguesa:

Adriano Correia de Oliveira - José Afonso - Vitorino - Sérgio Godinho - Fausto - Paulo de Carvalho - Carlos Mendes - Fernando Tordo - Maria da Fé - José Cid - Ouro Negro - Raul Indipwo - Teresa Silva Carvalho - Quim Barreiros - Duarte Mendes - Tónicha - Conjunto António Mafra - Samuel - Pop Five Music Incorporated - Arte & Ofício - Conjunto Maria Albertina - José Calvário - Pedro Osório - Florência - Quinteto Académico - Conjunto Pai e Filhos - Padre Fanhais - Júlio Pereira - Luís Cília - Teresa Tarouca - Padre Fanhais - José Jorge Letria - Heinz Worner - Walter Behrend - Trio Los Paraguayos - Lenita Gentil - António Portugal - Conjunto Sousa Pinto - Very Nice - João Braga - Tony de Matos - José Freire (...)