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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Morreu Rui Valentim de Carvalho

Morreu ontem o editor de Amália Rodrigues, administrador da Valentim de Carvalho durante mais de 50 anos

"A maneira como o meu sobrinho gosta de si, é impossível ser mais bem tratada noutro sítio." A carta do fundador da Valentim de Carvalho a Amália Rodrigues - que David Ferreira nunca leu mas de que sempre ouviu falar - explicava bem a paixão que Rui Valentim Barbosa de Carvalho tinha pela fadista. 

Antes de ser o seu editor histórico era um admirador. "A relação com Amália começou como fã, quase a persegui-la. Ela ficou agradada, claro, mas chegou a dizer-lhe: 'Devia era ir atrás da minha irmã mais nova, a Betinha'", conta David Ferreira, sobrinho de Rui Valentim de Carvalho. 

Onze anos mais novo, torna-se editor de Amália em 1952, tinha então 21 anos, e iria trabalhar com ela até a diva do fado morrer, em 1999. "Tinham uma relação próxima, ele ia para o estúdio, não ficava fechado no gabinete. Naquelas famosas sessões em que ela levava arroz de pimentos e pastéis de bacalhau, ele estava lá. Também assiste a espectáculos pelo mundo fora e defende-a quando o fado de Amália choca muitos. Estava sempre do lado dela", diz David Ferreira. O musicólogo e especialista em fado Rui Vieira Nery acrescenta mais detalhes sobre a relação. "Preocupou-se sempre com dar a Amália as condições ideais para esta gravar sem constrangimentos, num ambiente informal, quando queria. A Amália gravava durante a noite, até à hora que melhor lhe convinha, cercada de amigos, para que o seu talento não fosse perturbado. Era um grande amigo pessoal da Amália, nos momentos mais difíceis, no pós-25 de Abril e, mais à frente, na doença dela. Um pilar da vida e da carreira da Amália."

EDITOR EXEMPLAR O "grande Editor do século xx", como a empresa - onde trabalhou mais de 50 anos e que foi fundada pelo seu tio, Valentim de Carvalho - o recordou, morreu ontem no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, aos 82 anos, sofrendo de doença de Alzheimer. O "editor exemplar", lembrado "como pessoa muito afectuosa, muito requintada e culta", nas palavras de Rui Vieira Nery, não trabalhou apenas com Amália Rodrigues. 

Outros grandes nomes do fado passaram pela editora, Carlos Paredes, Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva, Carlos Ramos, Lucília do Carmo, Max, Maria Teresa de Noronha ou Fernando Farinha. Ainda nos anos 80, ao lado da mulher, Maria Nobre Franco, administrava a Valentim quando saem nomes como Rui Veloso, GNR ou António Variações. E já antes tinha assinado com nomes que nada tinham a ver com o fado, como Quarteto 1111, Sheiks e Duo Ouro Negro. 

No final dos aos 60 vai para Angola e apaixona-se pela música angolana. "Ele é recordado pela sua ligação à Amália, mas é muito mais do que isso, até pela circunstância de ler levado para os seus estúdios o sobrinho David Ferreira e Francisco Vasconcelos, que são sem dúvida dois dos principais responsáveis por quase tudo o que é bom na música portuguesa de hoje, desde o tempo do rock do Rui Veloso a dos Madredeus. Tanta gente... É indiscutivelmente uma das figuras incontornáveis da música portuguesa", defende o jornalista Pedro Rolo Duarte, que conheceu o editor e o recorda como um homem muito generoso. As preocupações artísticas e de qualidade estavam sempre presentes, como defende Rui Vieira Nery: "No universo da indústria discográfica há normalmente uma obsessão com o lucro. No Tim, como era conhecido, sempre vi o fascínio pela música, a paixão pela arte, a vontade de fazer coisas que ficassem como legados artísticos importantes."

Houve um nome que ficou fora do seu legado mas sempre na sua wish list. "Sei que ele queria muito José Afonso, que gravou quatro músicas e depois foi para a editora Orfeu. Como a Valentim de Carvalho era uma grande editora, o José embirrava porque a imagem era a do sistema", conta David Ferreira.

Visionário, foi ele que criou os estúdios Valentim de Carvalho, nos anos 60, que se tornaram uma referência. Depois da primeira gravação de Amália para a Editora Valentim de Carvalho, em Londres, nos estúdios de Abbey Road, a vontade de fazer um estúdio assim em Portugal tornou-se mais forte. Os estúdios em Paço de Arcos eram tão bons que nomes como Júlio Iglésias, Cliff Richard, os Shadows, Vinícius de Moraes e os Rolling Stones vieram cá gravar.

APARELHOS E BOTÕES Esta história podia começar como uma brincadeira de miúdos que adoram mexer em botões e construir engenhocas e ficar-se por aí. Um estágio a montar rádios e pronto. Mas Rui Valentim de Carvalho, filho do advogado Jacinto Barbosa de Carvalho e de Adelaide Carvalho, irmã mais nova do fundador da editora, acabou por mudar o final da história.

Aos 13 anos, ainda no ensino técnico, vai trabalhar para a empresa fundada pelo tio em 1914. A Valentim de Carvalho começou por vender gramofones e instrumentos musicais. Só seis anos depois se tornaria a primeira editora discográfica portuguesa. "Dirigir a empresa é uma coisa que nem lhe passava pela cabeça. Tinha um tio com uma empresa e ele, encantado com rádios, vai para lá. A primeira paixão eram os aparelhos. Depois, aos 15, o tio manda-o para Inglaterra, para a EMI", conta David. Chegar a Inglaterra não o deixa com a mania das grandezas e vai trabalhar como operário. "O Rui vai estagiar, mas não é num lugar importante, vai para a fábrica meter discos nas prensas. Depois faz os recados em Abbey Road e ainda esteve atrás do balcão da loja His Master's Voice em Oxford Street. Aprende-se a trabalhar", explica o sobrinho.

Homem reservado, tímido até, não gostava de dar entrevistas. O sobrinho recorda que, quando foi o incêndio no Chiado - a editora ficava na Rua Nova do Almada -, o tio não queria falar com os jornalistas e empurrou o jovem David Ferreira para falar. Mas o que fica para a história é o seu trabalho de editor e, para o sobrinho, a pessoa muito afectuosa, generosa e informal que "adorava cães e que os cães adoravam". 

Vanda Marques / I (com Miguel Branco)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tese de mestrado de Leonor Losa


A tese de mestrado de Leonor Losa ("Nós humanizámos a indústria". Reconfiguração da produção fonográfica e musical em Portugal na década de 60) foi defendida em 2009 na Universidade Nova de Lisboa. Trabalho de grande qualidade, fiquei a conhecer bastante melhor a atividade fonográfica do país naquele período quando o li agora.

Logo à entrada, a autora diz que a sua tese tinha por objetivo a reconfiguração da produção discográfica, em especial a do editor Arnaldo Trindade, a quem dedica os dois últimos capítulos.

O texto tem introdução, cinco capítulos e conclusões. Os nomes dos capítulos são:

2) "Musicas" e "machinas falantes": mercado de partituras e fonogramas em Portugal desde meados do século XIX até à década de 30,

3) A emergência da rádio: sobreposição de reportórios dos anos 30 ao início dos anos 60 do século XX (criação da Emissora Nacional, surgimento de "fábricas de discos" e novos reportórios, centralidade da rádio),

4) Panorama editorial em Portugal nos anos 60 (protagonismo da Valentim de Carvalho, Fábrica de Discos Rádio Triunfo: nacionalização da produção fonográfica, Sassetti: edição de novos reportórios, atividade editorial no país nos anos 60),

5) Arnaldo Trindade: percurso biográfico e constituição da editora,

6) "Nós humanizámos a indústria". Reconfiguração da produção fonográfica em Portugal na década de 60 (postura editorial de Arnaldo Trindade e relação com os músicos, produção de "música de tema": tentativas de designação genérica dos produtos musicais).

No quarto capítulo, a autora aborda a autonomização da produção fonográfica em Portugal e o protagonismo dos espetáculos (p. 57), bem como o papel da imprensa especializada, de que releva o Mundo da Canção. A criação de uma fábrica de discos da Valentim de Carvalho ocorreu no começo da década de 1960, já depois do falecimento do fundador da empresa. Um dos sobrinhos, Rui Valentim de Carvalho, contra a vontade da empresa, abriu a fábrica do Campo Pequeno, onde se realizaria a prensagem de EP de gravações originais e cópias de gravações de editoras e etiquetas estrangeiras (p. 64). Na mesma década, seria construído o estúdio de Paço d'Arcos. A centralidade de reportório no fado (caso da fadista Amália Rodrigues) e a qualidade de gravações feitas pelo técnico de som Hugo Ribeiro garantiram a supremacia da editora. A Valentim de Carvalho apostou também em estilos de música importada caso das tipologias rock'n'roll e ié-ié (pop de origem francesa). Já a Fábrica de Discos Rádio Triunfo, fundada em 1946 no Porto, começara como loja de rádios e aparelhos de transmissão (p. 65), dando início em 1948 à produção de fonogramas. A Rádio Triunfo seria também editora, tendo um catálogo forte em música de ranchos folclóricos e intérpretes que desenvolviam as suas carreiras na rádio (Tony de Matos, Maria de Lurdes Resende, Maria Clara, Gabriel Cardoso), com uma relação de proximidade com a Emissora Nacional, cujo estúdio em Vila Nova de Gaia era usado habitualmente para gravações de discos.

A Sasseti, fundada em 1848, seria comprada por António Marques de Almeida e dois outros sócios que tinham fundado a cooperativa Guilda da Música em 1967 (p. 70). Pouco tempo depois associada à organização Zip-Zip, a Sassetti teve uma forte incidência nas gravações de música erudita (Antologia da Música Europeia) e de música popular portuguesa (Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília e José Afonso). Finalmente, a Arnaldo Trindade, cujo proprietário estivera com frequência nos Estados Unidos, distribuiu discos de cantores em voga franceses (Johnny Halliday, Françoise Hardi, Serge Gainsbourg) e ingleses (Sandie Shaw), mas também as etiquetas Island (soul music, rythm'n'blues) e Tamla Motown (reggae) (p. 76). Numa das visitas aos Estados Unidos, Arnaldo Trindade comprara uma máquina de gravação Ampex, de quatro pistas, começando a gravar em 1952. Iniciou a etiqueta Orfeu em 1956 e publicou discos do Conjunto Pedro Osório, Titãs, Conjunto Sousa Pinto, Pop Five Music Incorporated, mas também do Conjunto Maria Albertina, Conjunto António Mafra, Quim Barreiros, num apoio nítido à produção discográfica do norte do país (p. 81). Arnaldo Trindade notabilizou-se ainda pelas estratégias de promoção: oferta de fonogramas às estações de rádio, organização de concertos (exemplos: Elton John, Marino Marini, Sandie Shaw, Sylvie Vartan), publicidade televisiva e sistema contratual com os intérpretes, com pagamento de remuneração mensal tendo como contrapartida a gravação de um fonograma por ano (casos de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso).

Textos publicados por Leonor Losa podem ler-se na Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, com direção de Salwa Castelo-Branco, conjunto de quatro volumes editados em 2010 pelo Círculo de Leitores.

Rogério Santos / Indústrias Culturais, 02/02/2012


Um artigo do jornalista Orlando Dias Agudo publicado na revista Antena, nº 80, de 1 de julho de 1968 pode ser lido no blog Indústrias Culturais. O jornalista teve ocasião de visitar as instalações da Valentim de Carvalho e da Fábrica Portuguesa de Discos da Rádio Triunfo.

(imagem de Hugo Ribeiro no referido artigo)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estranha Forma de Vida


O 6º episódio de "Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa" é dedicado ao outro lado do meio musical - as editoras por trás dos discos, especialmente no período que vai de inícios dos anos 50 a inícios dos anos 80. Para nos acompanhar, contámos com os testemunhos de Arnaldo Trindade, Carlos Cruz, Carlos Portugal, Daniel de Sousa, Eugénio Pepe, Francisco Nicholson, Hugo Ribeiro, Manuel Jorge Veloso, Mário Martins, Pedro Osório e Vieira da Silva.

João Carlos Callixto

Após a introdução do LP, em 1948, a indústria discográfica assiste a uma completa transformação. A etiqueta Orfeu foi uma das pioneiras no nosso país, como nos conta neste episódio Arnaldo Trindade. Mas, nas décadas de 50 e 60, a Valentim de Carvalho e a Rádio Triunfo disputavam muitos dos nomes maiores do fado e da canção ligeira, e profissionais do meio, como Carlos Portugal, Daniel de Sousa ou Mário Martins, relembram a sua passagem por essas editoras. Já na segunda metade da década de 60, surgem independentes, nomeadamente a Riso & Ritmo (recordada por Eugénio Pepe, Francisco Nicholson e Vieira da Silva) e a Zip-Zip (de quem ouviremos Carlos Cruz), criadas após o sucesso dos programas homónimos na RTP. A histórica Sassetti lança-se também no mercado discográfico já em inícios dos anos 70, como recordam Manuel Jorge Veloso e Pedro Osório, e acaba por conquistar um lugar de relevo no panorama nacional.

Site RTP

Discos Estoril
Rádio Triunfo / Alvorada
Valentim de Carvalho
Orfeu / Arnaldo Trindade
Discos Rapsódia
Tecla
RR / FF
Marfer
Zip-Zip
Sassetti / Guilda da Música
...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Valentim de Carvalho

Em 1923, Valentim de Carvalho comprou o Salão Neuparth - loja de música centenária - e com isso deu um novo impulso ao comércio no chiado. Foi um visionário do que, mais tarde, haveria de se designar por negócio da comunicação. Apostou na rádio para vender mais discos e, nos anos 50, fundou a primeira fábrica em Portugal. Eis algumas histórias suas e dos sucessores no reino dos multimédia

Quando desapareceu, em Julho de 1957, a cantora Maria Alice vestiu-se de luto carregado para o acompanhar à última morada; a «menina da rádio» - da Lisboa dos anos 30 - sentia de novo aquele estranho vazio que há alguns anos a incomodava. O senhor Valentim - como ela sempre se lhe referiu - partia sem nunca ter querido filhos; nem dela, a segunda esposa e companheira dedicada, nem da sua primeira mulher, também Maria Alice, com quem esteve casado (por pouco tempo) no início da década de 30.

Quarenta e dois anos depois, as mãos manchadas de Maria da Graça Barbosa de Carvalho revelam o passar do tempo. A sobrinha mais velha de Valentim de Carvalho - uma das suas herdeiras naturais - revolve as gavetas da vivenda encomendada pelo tio ao arquitecto Jorge Segurado, à procura de fotografias antigas. A tarefa torna-se difícil e morosa; neste clã nunca ninguém teve o hábito de ocupar os serões a organizar o álbum dos retratos. Nem ela, uma das mulheres solteiras da família.

Maria da Graça sempre se sentiu uma mulher avançada para o (seu) tempo: «Fui a única, dos meus cinco irmãos, a ser capaz de dizer 'não' ao tio Valentim.» Os manos - como ainda hoje se tratam os sobreviventes - reagiam de forma diferente, apesar de todos terem escolhido o seu próprio caminho. Carlos, já desaparecido, ingressou na carreira diplomática; Maria Eulália licenciou-se em Filologia Românica e casou com o poeta David Mourão-Ferreira (seu colega na faculdade de Letras), de quem teve dois filhos. Tininha casou no Porto com Francisco Vasconcelos, e teve cinco filhos. Rui Valentim, gémeo de Tininha, dedicou-se de alma e coração à firma. Ignorou a faceta autoritária da personalidade do tio em troca da paixão que o acompanha desde a adolescência: «Fabricar engenhocas.»

Os gémeos Rui Valentim e Tininha são os filhos mais novos do advogado Barbosa de Carvalho e de Adelaide, uma das quatro irmãs de Valentim de Carvalho. Valentim tinha um fraco pela mais velha, Etelvina, mas esta nunca casou. Guilhermina, com sérios problemas de saúde, foi a marginal do clã. Raul, os «ouvidos» de Valentim, a quem o irmão confiava as contas do império que ousou construir no mundo da comunicação.

Se tivesse vivido no último quartel do século XX, Valentim de Carvalho designar-se-ia a si próprio como um empresário do sector multimédia e, provavelmente, transferiria a responsabilidade da gestão do património da família para as mãos de uma «holding», cotada em Bolsa, pouco se importando com o contributo que os sobrinhos poderiam dar à continuidade do negócio. Mas nas primeiras décadas do século a mentalidade era diferente. Respirava-se uma atmosfera personalizada, em que a figura do patrão infundia respeito e segurança.

Valentim nasceu num meio humilde, filho do dono de uma casa de pasto no (então) bairro periférico de Campo de Ourique e começou a trabalhar ainda menino. Não sabia uma nota de música, mas cedo se apercebeu que a venda de pautas e instrumentos musicais constituía uma excelente oportunidade de negócio. Em 1914 estabeleceu-se por conta própria no nº 37 da Rua da Assunção; a tabuleta com letras douradas sobre fundo negro anunciava: Valentim de Carvalho, indicando o número de telefone (4282), um objecto ainda raro naquela época.

Na altura era um republicano convicto, com ligações à maçonaria; em 1921 desliga-se formalmente desta organização numa carta datada de 31 de Outubro: «A Maçonaria acaba de praticar dois actos, um do outro sequência, que me levam a adoptar uma atitude perante uma agremiação a que ainda pertencia, por ter em muito apreço os II dessa oficina com quem privo. (...) Peço-vos pois que me considerem desligado da Maçonaria, ainda que o faça cheio de pesar, não só pelas dolorosas razões que me movem, bem como pela estima que me merecem os II (...)». Refira-se que este texto é o único documento com autoria atribuída ao próprio Valentim de Carvalho transcrito no livro «Sons de Lisboa: uma biografia de Valentim de Carvalho», da autoria de José Sarmento de Matos.

A saída desta organização não prejudicou o desenvolvimento do comércio de discos e pautas musicais. Dois anos mais tarde, em 1923, Valentim dá o passo mais importante da sua carreira: compra o Salão Neuparth e transforma este estabelecimento da Rua Nova do Almada numa instituição da Baixa de Lisboa. O «Salão Neuparth - Valentim de Carvalho» passa a ser local de tertúlia obrigatória da elite culta da primeira metade do século. Médicos conhecidos pelo seu amor às artes e letras passaram a picar o ponto na loja da Valentim de Carvalho: Pulido Valente, Reinaldo dos Santos, Juvenal Esteves e Fernando Fonseca, aos quais mais esporadicamente se juntava a marquesa Olga de Cadaval e o poeta Teixeira de Pascoaes, entre muitos outros.

A II Guerra teve um efeito paradoxal em Lisboa, transformando a capital numa cidade cosmopolita; por aqui passaram hordas de refugiados judeus em busca de um transporte que os conduzisse para longe da Europa. Alguns eram cultos e tinham posses, motivo suficiente para gerarem uma certa animação na Baixa. O noticiário de guerra fazia com que as pessoas ouvissem muita rádio, e a música era o entretenimento que se impunha para aligeirar os dias e aliviar os espíritos do conhecimento dos males que os outros penavam. Lá fora.

Visionário, Valentim percebeu que a rádio o faria vender discos; cada vez mais. Começou a alimentar o projecto de construir uma fábrica de discos em Portugal, para dar voz aos artistas nacionais; os seus sonhos eram demasiado grandes para caberem na área do comércio.

Em casa, na Rua Braamcamp, não descurava a educação dos sobrinhos, órfãos de mãe; Adelaide morrera aos 32 anos na sequência de uma operação à barriga. «Naquele tempo a anestesia era feita com uma máscara de clorofórmio. Deram-lhe de mais e ela não acordou», conta a filha mais velha Maria da Graça, que perdeu a mãe aos nove anos: «Eu era uma miúda ginasticada e desempoeirada e a partir daí passei a andar toda curvada, com o peso da responsabilidade. Vestiram-me de luto carregado».

Os gémeos Rui e Tininha tinham dois anos quando Adelaide morreu; a tia Etelvina substitui a irmã o melhor que pode, enquanto o tio Valentim, na retaguarda, estava cada vez mais atento à educação dos sobrinhos que haveriam de herdar o património que ia adquirindo: nessa altura, Valentim de Carvalho já tinha estendido a sua actividade para o sector do imobiliário, representações de marcas (máquinas de escrever, electrodomésticos, etc), entre outros.

Dos cinco filhos de Adelaide, Rui Valentim era o único que se entretinha na loja da Rua Nova do Almada: «Gostava de ir para lá trabalhar nas férias; se calhar hoje chamavam trabalho infantil a essa minha actividade, mas a verdade é que fiz a tarimba toda; comecei por limpar o pó, aprendi a polir os móveis para os gramofones com uma boneca. Só não gostava de fazer embrulhos, não tinha jeito nenhum para aquilo». Insiste em prestar homenagem à memória do senhor Guimarães, um dos primeiros empregados da firma, com quem aprendeu muito: «De vez em quando, dizia ao tio Valentim que eu estava a sair da linha; mas era só para não parecer que estava a dar graxa ao patrão, as pessoas tinham o seu orgulho».

Nos primeiros anos da adolescência, Rui apaixonou-se pela técnica: «O meu sonho era construir um gravador». E fê-lo, embora reconheça que gravava muito mal. A engenhoca ardeu aquando do incêndio do Chiado, a 25 de Agosto de 1988. A loja ficou completamente destruída bem como quase todo o arquivo fonográfico e documentos pessoais: «Não se aproveitou quase nada. Foi um desgosto terrível, um grande corte com o passado.»

Rui Valentim assumiu o comando da empresa depois da morte do patriarca. Porque era um homem fascinado pela técnica, apostou na vertente industrial do grupo Valentim de Carvalho. A primeira fábrica de discos do grupo fora edificada em Lisboa (Campo Grande) no final da década de 40. O sucessor rentabilizou esta unidade até a tornar incapaz de dar resposta às necessidades: «A minha outra paixão eram os artistas, a escolha do repertório. Acompanhei quase todas as gravações da Amália, e encaro isso como um privilégio, uma honra». Aquando da morte da diva remeteu-se ao silêncio: «Não tenho palavras para dizer o que sinto.»

À semelhança do tio, Rui Valentim já casou depois dos 40, com a galerista Maria Nobre Franco, actual directora da Colecção Berardo no museu de Sintra. Não há descendentes desta ligação, o que volta a eleger os sobrinhos como actores privilegiados da sucessão nas empresas da família (os filhos de Maria Eulália, o filho de Carlos, e os filhos da Tininha).

Francisco Vasconcelos (43 anos), um dos cinco filhos da gémea de Rui Valentim, assume a liderança do grupo no início desta década, numa época pouco auspiciosa para os negócios da família. O incêndio do Chiado e o aparecimento do CD são dois acontecimentos que deixaram marcas profundas. O primeiro porque afectou a estrutura emocional da empresa e de todos os seus colaboradores, ao mesmo tempo que destruiu o arquivo e o património histórico da empresa, obrigando ao encerramento da sua loja mais emblemática. O segundo porque comprometeu a viabilidade da fábrica de discos de vinil em Paço d'Arcos, que atingira o máximo da sua produção em 1985.

Francisco começa a trabalhar na empresa pouco tempo depois do 25 de Abril. Estreia-se como vendedor da já desaparecida loja Valentim de Carvalho da Av. Roma (Lisboa). De referir que o seu primo direito David Ferreira (filho de Maria Eulália e de David Mourão-Ferreira e actualmente administrador da EMI) fez exactamente o mesmo trajecto. Em 1979-80 mudam-se os dois para a editora: «Com funções trocadas, registe-se. O David, que tem imenso jeito para contactos, começou pelo planeamento enquanto eu trabalhava na promoção. Isso acabou por ser corrigido rapidamente».

Ao assumir a escolha dos artistas a editar, Francisco entra em rota de colisão com as opções do tio Rui Valentim, um incondicional de Amália. «A Amália quase que asfixiou a casa. Por causa dela, prejudicámos a restante edição nacional. Nomes como o Sérgio Godinho, Fausto, Zeca Afonso ou Vitorino não estão connosco por causa da Amália», comenta. «E o mais curioso é que a grande expansão da nossa fábrica de discos acontece depois do 25 de Abril.»

Atento às ideias da nova geração, Rui Valentim encara a hipótese de começar a delegar nos sobrinhos as opções editoriais da empresa que (então) se chamava EMI-Valentim de Carvalho: «Foi um período complicado; a nossa ligação internacional à EMI estava a ser questionada», conta Francisco enquanto recorda que a Kate Bush lhes salvou a vida: «Um indivíduo da EMI chamado Mike Eatley veio cá para solucionar o problema. Ouviu a Kate Bush na rádio vezes sem conta, e achou que nós, eu e o David, estávamos a fazer um grande trabalho de promoção. Decidiu dar-nos uma oportunidade e mantivemos a associação entre as empresas.»

Uma greve de músicos de orquestra (utilizados nas gravações em estúdio) constitui o segundo momento de sorte para os primos David e Francisco. «Aproveitámos para lançar os GNR, Rui Veloso e os Xutos, e a verdade é que além de antevermos o aparecimento de uma nova geração na música portuguesa, relançámos a área editorial da Valentim de Carvalho».

Alguns anos mais tarde (1983-1984) David e Francisco, por alturas do divórcio da EMI com a Valentim de Carvalho, abandonam o ramo familiar e vão trabalhar para a EMI. O primeiro ainda está na EMI, enquanto o segundo regressou à casa-mãe para imprimir um novo ritmo ao negócio que o patriarca da família começara no tempo da República: «Aprendi na EMI aquilo que mais tarde me foi útil na Valentim de Carvalho.»

A partir de 1987 Francisco decide apostar na expansão da rede de lojas: «A Valentim de Carvalho tinha começado por ser uma casa comercial que evoluiu para o sector industrial e descurou a actualização das lojas. A casa da Rua Nova do Almada era muito completa em termos de música clássica, mas eu, quando queria comprar outro tipo de discos, ia buscá-los às lojas da concorrência.»

O incêndio do Chiado acabou por funcionar como um catalisador que obriga a uma rápida abertura da loja do Rossio. De então para cá o sector comercial da Valentim de Carvalho decide conquistar o público jovem: «Tinha a perfeita noção de que era necessário agarrar esta franja do mercado, antes de a Virgin e a FNAC se instalarem no mercado português», diz Francisco que entretanto assumira a liderança (prática) da administração do grupo (a presidente do Conselho de Administração ainda hoje é a sua tia Maria da Graça).

A primeira fase da renovação faz-se com a prata da casa: Luís Castanho, marido de Adelaide - a filha de Maria Eulália e David Mourão-Ferreira - é o responsável pela área comercial. António, um dos irmãos de Francisco, é o responsável pelos negócios em Angola (onde a Valentim já instalou vários estúdios e tem projectos para o futuro). Pedro, um outro irmão de Francisco, assume a coordenação dos estudos de vídeo, que constituem uma etapa decisiva para a entrada do grupo na área do multimédia. Carlos, primo de Francisco, fica na administração.

Em meados da década de 90, Francisco decide convidar um elemento estranho à família para a administração; trata-se de Manuel Falcão, ex-jornalista e crítico musical, colega de escola de David Ferreira: «Na altura fiquei surpreendido com a proposta. Conhecia o Francisco há muitos anos mas nunca tinha pensado trabalhar naquilo que eu classificava de 'lado de lá' quando era jornalista.»

Manuel Falcão acaba por ser um homem de confiança de Francisco, tal como o senhor Guimarães o fora para o velho Valentim ou o senhor Ribeiro para Rui Valentim; salvaguardem-se as diferenças de perfis entre os nomes mencionados e a dinâmica que a empresa adquiriu. Os tempos mudaram, e a Valentim de Carvalho evoluiu de uma simples loja para um grupo multimédia que factura mais de sete milhões de contos ao ano.

O velho patriarca ficaria contente com o trabalho dos sobrinhos se, em sonhos, pudesse sobrevoar a sua Lisboa. Os herdeiros assumiram-se como verdadeiros sucessores e cumpriram o sonho de um rapaz que nasceu pobre no dia dos namorados de 1888.

Um senhor da Baixa - Texto de MANUELA GOUCHA SOARES / Expresso, 20/11/1999

Valentim de Carvalho nasceu na freguesia de Santa Isabel, em Lisboa, a 14 de Fevereiro de 1888, dia de São Valentim [daí o seu primeiro nome]. Os pais eram de Maxial, junto a Torres Vedras. A primeira casa de Valentim de Carvalho foi em Campo de Ourique, onde o pai tinha uma casa de pasto (restaurante), na esquina da rua Ferreira Borges com a rua Correia Teles. A família vivia no primeiro andar, sobre o armazém. A mãe queria que o jovem estudasse, mas, muito doente, não conseguiu impor a sua visão. Desde cedo, Valentim de Carvalho dedicar-se-ia à actividade comercial, primeiro como colaborador e, mais tarde, como empresário.

Assim, desde 1914, ocupava a rua da Assunção, 39, onde vendia nomeadamente capas e letras de músicas (de revistas). Depois, em 1923, ocupa também o até então chamado salão Neuparth [cujo nome mantém], à rua Nova do Almada, 95 a 99, no Chiado. O estabelecimento fora fundado por Eduardo Neuparth em 1824, ligado à música. Valentim vendia gramofones, discos, pianos e músicas. Ainda em 1923 edita o conjunto da obra de António Fragoso, considerado então a principal figura da música portuguesa. Desenvolvia-se o salão Neuparth, com publicidade feita com desenho de Stuart Carvalhais, em estilo jazzband, e na altura em que o cancan e o charleston se ouviam nos discos.

Valentim de Carvalho casaria com Maria Alice Marques, colega do conservatório da sua irmã Etelvina. Maria Alice foi fadista e uma das primeiras meninas da rádio e do disco. Para além das músicas da mulher, o catálogo discográfico da casa Valentim de Carvalho confunde-se com a edição de discos no nosso país. No fado como noutros tipos de música. Ainda hoje - embora já não ocupe a mítica loja do Chiado, que ardeu com o incêndio de 1988, e de a marca pertencer a outros proprietários - o nome Valentim de Carvalho é respeitado.

Existe já um livro sobre Valentim de Carvalho - e que me serviu para editar esta nota -, escrito por José Sarmento de Matos (Sons de Lisboa. Uma biografia de Valentim de Carvalho, 1989. Lisboa: Pub. D. Quixote/Valentim de Carvalho), muito desigual no conteúdo mas deveras interessante quanto a reproduções de capas de discos. Por isso, considero que ainda há muito a fazer para o verdadeiro balanço - estético, cultural, industrial e económico - da obra do empresário.

Rogério Santos, blog Indústrias Culturais, 03/04/2003